sábado, 27 de setembro de 2014

CAMPUS SEM LEI

REVISTA ISTO É N° Edição: 2340 | 26.Set.14


Série de crimes tendo como palco a Universidade de São Paulo expõe o clima de violência e insegurança a que estão expostas as 100 mil pessoas que frequentam diariamente a maior instituição de ensino do País




Mais uma suspeita de crime tendo como cenário a Universidade de São Paulo (USP), na zona oeste da capital paulista, na semana passada, jogou luz sobre o espantoso aumento da violência e a insegurança reinante no campus da maior instituição de ensino superior do País. Neste ano, o número de roubos no campus Butantã, o principal da USP, mais que dobrou. De janeiro a agosto deste ano foram registradas 70 ocorrências pela Guarda Universitária, responsável pela segurança do local, contra 30 em 2013. Em três delegacias vizinhas, onde muitos dos crimes podem ter sido notificados, foram 42 estupros só até o mês passado. Em 2013, esse número foi de 40. Índices de roubos, furtos e assaltos também tiveram crescimento semelhante. Na tragédia mais recente, o corpo do estudante Victor Hugo Marques Santos, de 20 anos, foi achado na raia olímpica na terça-feira 23. O jovem estava desaparecido desde a madrugada de sábado 20, quando participou de uma festa para 5 mil pessoas organizada pelo Grêmio da Escola Politécnica no velódromo do clube do campus, o Cepeusp. “Frequento festas lá e vi situações iguais várias vezes. Assaltos, estupros, sequestros. A USP é uma terra de ninguém”, diz Vinícius Costa, 33, primo de Victor Hugo, que estudava design no Senac. O episódio escancarou as falhas de segurança do campus, a começar pelo corpo policial, 40 homens com a missão de zelar por uma população de 100 mil pessoas.



Já há algum tempo as ruas arborizadas da Cidade Universitária são locais perigosos. Recentemente uma série de mortes vem chocando os membros da universidade líder em pesquisas no País. O mais rumoroso aconteceu em 2011, quando o estudante de ciências atuariais Felipe Ramos de Paiva, 24 anos, foi morto com um tiro na cabeça numa tentativa de assalto no estacionamento da FEA, a Faculdade de Economia e Administração da USP (veja outros casos na pág. 60). A principal queixa de alunos, professores e funcionários é a falta de iluminação, que deixa uma grande parte das ruas do campus vazia e escura à noite. “As novas luzes no estacionamento da FEA ficaram ótimas, mas parou por aí. Quando preciso pegar ônibus ou caminhar até outra unidade para pegar o carro, eu sinto medo”, diz Larissa Andreotte Carvalho, que está no terceiro ano do curso de administração de empresas. As novas lâmpadas a que ela se refere fazem parte de um projeto iniciado no ano passado, quando a USP passou a substituir antigas luminárias por novas, de LED. “Essas luzes podem ser reguladas com o anoitecer e acentuadas nos locais onde forem registradas ocorrências, mas a instalação não terminou porque é necessária uma central de monitoramento, que hoje não existe”, afirma Ana Pastore, superintendente de segurança na Cidade Universitária e responsável pela Guarda. Também não há câmeras em vários pontos do campus e as que existem somente registram em tempo real, não gravam.



Outro fator de risco para as 100 mil pessoas que passam pelo campus Butantã diariamente é a discussão sobre quem é o maior responsável pela segurança no local. Setores da universidade defendem que a Polícia Militar seja proibida de entrar ali para não reprimir manifestações de trabalhadores e estudantes. Em 2011, na esteira do escândalo causado pelo assassinato no estacionamento, a USP fechou um convênio com a PM para aumentar a segurança no local, mas, após conflitos causados por protestos contra a detenção de três estudantes que fumavam maconha na faculdade, a presença dos policiais diminuiu bastante. Hoje, a corporação faz rondas esporádicas e possui uma Base Comunitária Móvel. Ana Pastore admite que o fraco efetivo da Guarda Universitária (que conta com apenas 40 homens, divididos em turnos de não mais de 15 pessoas) não consegue patrulhar o campus sozinho, mas gostaria que a PM só entrasse ali em casos críticos, como o de sequestros e roubos a bancos. Coronel reformado da PM e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, José Vicente da Silva Filho discorda. “Esse pensamento é uma tolice que expõe a todos que frequentam a USP. A Guarda Universitária é insuficiente porque é patrimonial, não tem poder de polícia.”



Na esteira da tragédia com Victor Hugo, a universidade também começou a tomar medidas para controlar as festas no campus. O Cepeusp desmarcou dois eventos já agendados e suspendeu temporariamente a realização de festas no velódromo. O diretor da Escola Politécnica também proibiu confraternizações na faculdade, declarando que alunos têm que estudar, e não “encher a cara”. Um grupo de trabalho que discutia se festas deveriam ou não ser permitidas na Cidade Universitária vai pedir que todos os diretores de unidades se posicionem. De acordo com Ana Pastore, a Cidade Universitária não tem estrutura para receber festas de grande porte e só eventos menores deveriam ser autorizados. Secretário-geral da Associação dos Docentes (Adusp), Francisco Miraglia afirma que a proibição é uma medida ineficaz porque em universidades de outros países as festas são realizadas rotineiramente. “Proibir é tratar o sintoma em vez de cuidar da causa”, afirma.



Enquanto a instituição debate a ineficácia de seu sistema de segurança, a morte de Victor Hugo Marques Santos continua envolta em mistério. Não se sabe o que aconteceu depois das 5h da manhã do sábado 20, quando ele disse a amigos que iria comprar uma cerveja e não foi mais visto. A polícia suspeita que ele tenha sido assassinado e arrastado até a raia olímpica, pois havia escoriações no lado esquerdo do rosto. Também foi observado que o estudante não apresentava sinais de afogamento. O fato de dezenas de frequentadores da raia não terem visto o cadáver até terça-feira 23 reforça a desconfiança de que ele foi jogado ali três dias depois. Os investigadores, no entanto, não descartam a hipótese de suicídio e morte acidental porque as lesões encontradas não são compatíveis com feridas fatais. Além disso, um membro da Guarda Universitária relatou que amigos do jovem disseram que ele havia bebido e consumido LSD naquela noite. Os policiais também vão apurar se o homem retirado do velódromo por seguranças contratados pelo Grêmio da Poli era Victor Hugo. O laudo sobre o que causou a morte deve sair em um mês.



Fotos: Marcos Bezerra/Folhapress; Zanone Fraissat/Folhapress; Robson Ventura; Renato S. Cerqueira/Futura Press; Tião Moreira; Leonardo Soares/UOL

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